“Outros jeitos de Usar a Boca” tem feminismo e empoderamento feminino em forma de poesia

RUPI KAUR: POESIA, FEMINISMO E RESISTÊNCIA 1Com apenas 27 anos, a escritora e poetisa Rupi Kaur é um verdadeiro fenômeno no mercado literário. Seu livro de estreia, “Milk and Honey” foi publicado em português com o título de “Outros jeitos de usar a boca” em 2015 e foi um sucesso de vendas.

A escrita dela toca em temas sensíveis como abuso, perda, sexualidade, violência, amor e auto-estima.Estima-se que o livro de estreia dela tenha vendido mais de meio milhão de cópias em todo o mundo.

A obra é simplesmente obrigatória para aquelas envolvidas na militância artística contra o patriarcado. O cinema, o teatro, a música, a literatura e todas as manifestações de arte em nome de um mundo mais justo entre os sexos devem ser enaltecidas.

O livro é dividido em quatro partes: A dor, o amor, a ruptura e a cura. A leitura é fácil, mas isso não significa que seja simples. Compacta e ao mesmo tempo profunda, a artista utiliza de sensibilidade ímpar e ilustrações básicas para embalar um livro de poesia que pode ser considerado uma verdadeira experiência.

A leitura não deve levar mais de uma hora, mas a interpretação pode demorar uma vida inteira. Se você nunca ouviu falar sobre este livro, ou sobre a autora, sugiro que assista ao vídeo abaixo, com uma introdução cheia spoilers sobre a obra. De quebra a JouJou dá algumas outras dicas literárias, no final do vídeo.

O livro tem edição em português e também bilíngue, para aqueles que curtem saber como foi o original. Rupi Kaur nasceu em Panjabe, uma região localizada na Índia, mas migrou para o Canadá junto a seus pais quando tinha apenas 4 anos de idade. Sua experiência, mesmo ainda jovem, foi suficiente para fertilizar uma obra de arte realmente empoderadora.

Em matéria pela Super Interessante, Pâmela Carbonari elencou sete motivos pelos quais você deve investir seu tempo na leitura desse livro. Veja só:

1) Linguagem direta

A primeira coisa que vêem à mente quando falamos de poesia é rebuscamento, palavras difíceis, estrutura inacessível. É claro que essa é uma visão bastante errônea e defasada, mas o fato é que poesia não é o gênero literário mais democrático, muito menos o mais vendido. Mesmo entre pessoas que gostam muito de ler, a poesia encontra certa relutância em ser aceita. E é aí que Rupi acerta: seu trabalho vai na contramão do que é menosprezado(injustamente) na poesia.

Os versos de Outros Jeitos de Usar a Boca são tiros certeiros. A linguagem é direta, honesta e sem formalismos. Alguns não ultrapassam cinco linhas, outros ocupam duas páginas. Apesar da forma simples, a complexidade dos temas de Rupi não é afetada. E nem preciso dizer: não existe uma só página de monotonia.

nossas costas
contam histórias
que a lombada
de nenhum livro 
pode carregar

-mulheres de cor

2) Temática brutal

Já disse que o trabalho de Rupi é um tiro certeiro? Pois bem, na forma E no conteúdo.

O livro é dividido entre quatro partes que formam um belo arco narrativo sobre a condição de ser mulher hoje e a complexidade de se relacionar: a dor, o amor, a ruptura e a cura. As duas últimas partes são um pouco mais extensas que as primeiras, mas não menos fortes.

RUPI KAUR: POESIA, FEMINISMO E RESISTÊNCIA 2

pai. você sempre liga sem ter nada especial a dizer. você pergunta o que estou fazendo ou onde estou e se o silêncio entre nós se estende por uma vida dou um jeito de encontrar perguntas que façam a conversa continuar. o que eu queria mesmo dizer é. eu sei que o mundo te despedaçou. foi com tudo pra cima de você. não te culpo por não saber ser delicado comigo. às vezes fico acordada pensando em todos os machucados que você tem e nunca vai dizer. eu venho do mesmo sangue dolorido. do mesmo osso tão sedento por atenção que desabo em mim mesma. eu sou sua filha. eu sei que conversa-fiada é o único jeito que você conhece de dizer que me ama. porque é o único jeito que eu conheço.

3)  Universalidade

Boas histórias são aquelas que partem do individual, do particular para contar algo universal.

A vida de Rupi, por exemplo, é muito particular: ela nasceu em Punjab, na Índia, emigrou para o Canadá ainda criança, cresceu em uma comunidade de imigrantes no subúrbio de Toronto e é adepta de uma religião cercada de muito preconceito, o sikhismo. Suas vivências são bastante específicas, rodeadas de tabus e regras sobre ser mulher.

“Para as mulheres do sul da Ásia, você precisa ser quieta e não pode ter muitas opiniões”, disse em entrevista ao jornal The Guardian. Mesmo assim, os poemas criados por ela transcendem essas particularidades, conseguem conversar e tocar pessoas dos mais diversos contextos. Não é necessário ter passado pelas mesmas experiências que ela narra para sentir frustração de ter um pai alcoólatra, a raiva de ser silenciada ou a dor de viver um abuso.

o terapeuta coloca
a boneca na sua frente
ela é do tamanho das meninas
que seus tios gostam de apalpar

mostre onde ele colocou as mãos

você mostra o lugar
entre as pernas aquele
que ele arrancou com os dedos
igual a uma confissão

como você está se sentindo

você desfaz o nó
da garganta
com os dentes
e diz bem
um pouco dormente

– sessões nos dias de semana

4) A autora é uma poeta pop

Na mesma entrevista ao The Guardian, Rupi disse que não existia um mercado para poesias sobre trauma, abuso, perda, amor e cura sob a perspectiva de uma imigrante, mulher e Punjabi-Sikh. De fato, pode até ser que não existisse. Mas Rupi criou esse mercado.  Compartilhava suas poesias nas redes sociais e passou a ver que muita gente se sensibilizava com o seu trabalho. Quando falo muita gente, não é hipérbole alguma: Rupi tem 1,2 milhão de seguidores no Instagram, 124 mil no Twitter e 321 mil no Facebook.

Vendo o sucesso online de seus poemas, a jovem lançou o livro de maneira independente na Amazon em 2014. A compilação de seus poemas deu tão certo que em outubro do ano seguinte a editora Andrews McNeel Publishing publicou uma segunda edição de Outros Jeitos de Usar a Boca. Na mesma época de 2016, a antologia já estava na lista de mais vendidos do The New York Times.

Em 2015, Rupi se envolveu em uma polêmica online e ficou ainda mais famosa. Ela postou uma foto deitada, de pijamas e em sua calça havia uma pequena mancha de sangue. A imagem fazia parte de um conjunto de imagens para discutir tabus sobre menstruação, mas o Instagram tirou a publicação do ar.  Como é de se esperar, a poeta não deixou a hipocrisia passar e respondeu à censura. O Instagram desistiu da decisão e manteve a foto de Rupi.

“Obrigada Instagram por fornecer a resposta exata que meu trabalho foi criado para criticar. Vocês deletaram a minha foto duas vezes, afirmando que ia contra as diretrizes da comunidade. Eu não vou pedir desculpas por não alimentar o ego e orgulho de uma sociedade misógina que terá o meu corpo em uma roupa íntima, mas não está de acordo com um pequeno vazamento quando as suas páginas estão cheias de incontáveis fotos/contas onde mulheres (muitas menores de idade) são objetificadas, pornificadas e tratadas como menos que humanas.”

5) Ilustrações minimalistas

Rupi não é artista só da palavra. Além de escrever, ela faz performances, atua, fotografa e ilustra. Se as poesias não são motivos suficientes para ler sua antologia, os desenhos são. Todas as ilustrações minimalistas de Outros Jeitos de Usar a Boca foram feitas por Rupi.

Ela conta que herdou o apreço por desenho da mãe, que tem a atividade como hobby até hoje. Quando a família de Rupi chegou ao Canadá, ela não conseguia falar em inglês com outras crianças, isso a fez passar muito tempo sozinha e, consequentemente, a desenhar.

“Como pertencia a uma família de imigrantes, eu não tinha permissão para fazer esportes ou participar de acampamento, então o único que eu podia fazer era artes. Sempre pintei e li, como se a minha vida dependesse disso”, disse em entrevista ao site espanhol Woman.

a solidão é um sinal de que você está precisando desesperadamente de si mesma

6) O título

Na versão original, a antologia chama-se Milk and honey. E há inúmeras menções às duas palavras ao longo do livro.

como é tão fácil pra você
ser gentil com as pessoas ele perguntou

leite e mel pingaram 
dos meus lábios quando respondi

porque as pessoas não foram
gentis comigo

Mas em português o livro ganhou um novo nome que, a meu ver, é muito mais provocante e rende milhares de outras interpretações.

7) Feminismo

Se a intenção de Rupi era fazer com que as mulheres que lessem esse livro se sentissem acolhidas, ela conseguiu. A antologia tem vários poemas sobre sororidade, empoderamento e empatia, e o último capítulo é uma obra à parte nesse quesito. “A cura” é um abraço, soa como se uma pessoa próxima muito querida tivesse escrito uma carta e nos enviado.

quero pedir desculpas a todas as mulheres
que descrevi como bonitas
antes de dizer inteligentes ou corajosas
fico triste por ter falado como se
algo tão simples como aquilo que nasceu com você
fosse seu maior orgulho quando seu
espírito já despedaçou montanhas
de agora em diante vou dizer coisas como
você é forte ou você é incrível
não porque eu não te acha bonita
mas porque você é muito mais do que isso

Sabe aquele momento em que uma amiga está passando por uma fase difícil, de desamor, baixa estima ou quando não consegue sair de um relacionamento abusivo e nada do que você diz parece fazer efeito? Tente mandar algumas poesias da Rupi ou Outros Jeitos de Usar a Boca inteiro. São tiros certeiros.

E se você se interessou pelo texto, mas gostaria de ver a artista declamando seus próprios poemas, aqui está o bônus infosex desse post. É possível sentir a pulsação e ritmo dessa poetisa genial no vídeo abaixo, com legendas em português:

 

RUPI KAUR: POESIA, FEMINISMO E RESISTÊNCIA 3

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